2017/01/10

NATURAL BORN DEALERS

André Pinto Rocha reflete sobre as consequências dos recentes fenómenos de populismo, num artigo para a Advocatus, como o Brexit, as eleições dos EUA e outros movimentos populistas europeus.

“The whole world's coming to an end, Mal!
I see angels, Mickey. They're coming down for us from heaven. And I see the future, and there's no death, because you and I, we're angels... “

Mickey and Mallory Knox, in Natural Born Killers

Visto de 2015, o dia de hoje pareceria o pós-apocalipse.

A procura – quase obsessiva – das razões desta tão rápida mudança é só acompanhada em intensidade pelos esforços, de natureza cândida, de normalização de tantos e tantos acontecimentos que mudaram a paisagem política do Mundo. Mas, o que mais surpreende numa análise do frenesim de 2016, é a total integração e a invasão sem maneiras do domínio político pelos fenómenos sociais e económicos, que, até Junho de 2016, influenciavam, mas não determinavam, as escolhas políticas. Porque de facto, do que falamos é de escolhas polícias, sufragadas e livremente decididas pela maioria dos cidadãos na procura da conformação dos regimes que enquadram a evolução dos seus ecossistemas políticos.

Centremos-mos no Brexit e na eleição de Donald Trump, para não juntarmos já ao cocktail as previsões associadas ao próximo referendo em Itália e as esperadas “mudanças de regime” na ancestral e conservadora República Francesa.

Ambas as escolhas foram económicas. Foram-no, embora encapotadas por vestes políticas e esperançosamente associadas à desinformação do império da opinião (a agora famosa pós-verdade) e aos erros de campanhas mediáticas que não foram capazes de ser suficientemente alarmantes e escuros para desincentivar um voto tão pouco esclarecido.

A maioria da população votante, de acordo com as regras eleitorais vigentes nos EUA e no Reino Unido, decidiu optar por políticas de fecho as fronteiras das suas economias, protegendo mercados e recursos produtivos internos em detrimento de uma maior integração de espectro global, assente na livre iniciativa e na emergência de fluxos comerciais transfronteiriços, até agora só limitados em países com norma mais protecionista e, por isso, até aqui livremente apelidados de sub-desenvolvidos.

Quando vemos em fotografia de família, Nigel Farage e Donald Trump, para lá de todas as questões ideológicas que nos podem - se adiantasse…- assolar, vemos dois agentes de fronteira, estoicos e orgulhosos nos méritos intrínsecos, e só intrínsecos, da Good Old England e da Great America. Vemos dois protetores da auto-suficiência, defensores do fim da emergência de fluxos comerciais e de pessoas “parasitas” e “poluidoras” das ancestrais virtudes das suas terras prometidas, que, sozinhas, serão melhores (e muito melhores, dizem: Great) do que em ligação liberal com outras fronteiras.

Este esforço protetor foi o escolhido a partir de dentro dessas mesmas fronteiras. Escolheu-se combater o “Made in China”, os fluxos de imigração, os acordos transatlânticos (a missa de sétimo dia do TTIP realizou-se já a 28 de Novembro passado), optando-se pela edificação de protetorados, de armas de captação de retorno de investimento (as Reaganomics que Trump se preparará certamente para estabelecer) e pela defesa do orgulho nacional: o “orgulhosamente sós” do seculo 21.

As tensões sociais iniciadas em 2008, com a crise financeira, foram terreno fértil para alastrar as mensagens de melhores dias e do regenerar do sonho Americano e do sonho de Londres a Yorkshire, mas marcaram também a degeneração (irreversível?) do liberalismo económico que vingava estável e assente no Muindo Ocidental desde já o fim da segunda Guerra Mundial. E esta é, porventura, o fato do ano. Ou será, para aqueles que como nós acreditam na mudança de fundo das grandes rodas da Economia e nas virtudes da globalização, o fato do século, e não pelas melhores razões

Substituímos Política por Economics, Homens de Estado por megafones e, sobretudo, Leaders por Dealers e, mais do que tentar explicar, é agoira necessário perceber como adaptar todas as nossas estruturas e instituições a esta nova ordem que nos entrou pela casa dentro.

Certamente, tão cedo, não poderemos ver no nosso quotidiano a definição de política tão virtuosamente defendida por Tony Judt.

“If we remain grotesquely unequal, we shall lose all sense of fraternity: and fraternity, for all its fatuity as a political objective, turns out to be the necessary condition of politics itself.”